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6 de Janeiro – Dia de Reis

Culturas e Tradições

 

No dia 6 de janeiro é comemorado o Dia dos Santos Reis, tradição que remonta um episódio relacionado ao nascimento de Jesus Cristo. Quando este, ainda em Jerusalém foi visitado por estes personagens bíblicos tão misteriosos e provenientes do Oriente para adorar aquele que seria “o rei dos judeus”.

 

Esta data foi incorporada à cultura cristã como uma forma de venerar os Santos Reis Magos e seguiu se transformando em variadas tradições por meio das diferentes histórias e localidades que influenciou. Em Minas Gerais, a data movimenta muitos encontros e festividades com características diversas; sendo reconhecidas como patrimônio cultural imaterial.

 

  • O episódio bíblico
  • Quem eram os Reis Magos
  • A chegada de Jesus e o Reisado no Brasil
  • As Folias de Reis de Minas Gerais 

 

O episódio bíblico

 

No capítulo 2 do evangelho segundo Mateus tem-se a narrativa que envolve esses personagens: Os magos partiram do Oriente, seguindo uma estrela que os levou até Belém na Judeia, território onde nasceu Jesus e que hoje pertence ao Estado de Israel.

 

O primeiro encontro dos Reis Magos foi com o Rei Herodes, em seu palácio. Herodes ficou inseguro e assustado com esta visita, pois acreditava no nascimento do salvador profetizado: 

 

“E tu, Belém, de forma alguma és a menor das sedes distritais de Judá, porque de ti sairá um chefe que apascentará meu povo Israel” Mt 2, 6

 

Após o encontro com Herodes, os viajantes encontraram Jesus com sua família e o adoraram. Entregaram a eles os seguintes presentes: ouro, incenso e mirra. O relato bíblico diz que os Reis Magos foram avisados em sonho para que não voltassem a presença do Rei Herodes, que por sua vez mandou matar todos bebês meninos com dois anos ou menos. 

 

Os presentes ofertados pelos reis magos, sobretudo o ouro e a mirra (um óleo vegetal utilizado para cura do corpo e embalsamento dos mortos) foram úteis na fuga de Jesus e sua família para o Egito, onde ficaram até a morte de Herodes.

 

Quem eram os Reis Magos? 

 

No relato bíblico não se tem informações mais detalhadas sobre quem seriam estes personagens, de quais locais do Oriente vieram ou até mesmo a quantidade de viajantes que chegaram até Belém para visitar Jesus.

 

Os registros da tradição que temos hoje vieram, provavelmente, da Idade Média, cerca de 800 anos depois do nascimento de Jesus. Assim, os viajantes do Oriente foram quantificados, ganharam nomes, cargos e raízes geográficas.

 

A entrega de três presentes pode ter inferido de que seriam também três viajantes, onde cada um ofertaria uma destas relíquias, que podem possuir significados simbólicos, assim como os nomes escolhidos para suas designações: 

 

Melchior, Rei da Pérsia, significa “rei da luz”

Gaspar, Rei da Índia, significa “o branco”

Baltazar, Rei da Arábia, significa “senhor dos tesouros” 

 

Estes personagens podem ter sido apresentados como uma forma de reconhecimento de Jesus Cristo por diferentes povos.

 

Apesar disso, os viajantes poderiam nem ao menos terem sido Reis de fato, mas sim Magos – pessoas de alta sabedoria praticantes do Zoroastrismo, uma religião persa ligada ao estudo dos astros, o que pode explicar a simbologia da estrela-guia. Além da região da Pérsia, onde atualmente se encontra o Irã, ser mais oriental em relação à Judeia, onde nasceu Jesus. 

 

Nos relatos bíblicos não se tem datas definidas para as comemorações realizadas nos dias atuais, tendo estas sido incorporadas posteriormente por membros da Igreja Católica. O dia 6 de Janeiro havia sido escolhido pela Igreja Ortodoxa como data do nascimento de Jesus, enquanto a Igreja Romana havia adotado o dia 25 de dezembro por ser o dia de Mitra, o deus Sol persa. Com estas definições, a Igreja de Roma decidiu também respeitar a data de 6 de janeiro, venerando assim os viajantes que passaram a ser conhecidos tradicionalmente como Reis Magos .

 

A chegada de Jesus à Terra e do Reisado no Brasil

 

O dia de Reis é conhecido também como o dia da Epifania, pois com a visita dos Reis Magos foi confirmada a chegada de Jesus à Terra. Esta data é comemorada de diferentes formas ao redor do mundo e foi trazida para a América Latina junto aos colonizadores portugueses e espanhóis, que já seguiam estas tradições. 

 

No Brasil, é comumente a data quando se desmonta os enfeites natalinos. Além de ser palco para diversas festas populares com cortejos, músicas e comida com características próprias de cada região. O Reisado é comemorado mais fortemente no Nordeste em estados como Rio Grande do Norte, Alagoas, Sergipe e Bahia. Enquanto no Sudeste, tem-se destaque os estados de São Paulo e Minas Gerais. 

 

Em nosso país, o dia dos Reis Magos é uma das expressões de uma construção religiosa que se desenvolveu de maneira única decorrente das influências de diversos povos. Nesta vertente, chamada por Neder (2015) de Catolicismo Santorial, a principal característica é o culto aos santos, frutos do sincretismo brasileiro. 

 

De acordo com a pesquisadora, a cosmovisão banto aceita a adição e a articulação de diferentes elementos, seguindo uma visão inclusivista. Assim como o culto desses povos à ancestralidade se aproxima da humanização dos santos apresentada pelo Catolicismo Santorial. Estes fatos seriam de grande importância para que os negros escravizados trazidos para estas terras passassem a cultuar as festas apresentadas pelos povos europeus. E a partir disso também as modificasse a partir das suas raízes culturais. 

 

As folias de Reis em Minas Gerais 

 

Em 6 de janeiro de 2017, as folias de Reis foram declaradas como patrimônio cultural imaterial do estado. Neste momento, o Instituto Estadual do Patrimônio Histórico e Artístico (IEPHA) registrou a existência de 1255 grupos em 326 municípios do Estado. 

 

As folias são manifestações culturais-religiosas que também podem ser denominadas também como ternos, reisados ou companhias. Os grupos se estruturam a partir de sua devoção aos santos como os Reis Magos, Divino Espírito Santo, São Sebastião, São Benedito e Nossa Senhora da Conceição. Geralmente os grupos são formados por cantadores e tocadores, podendo apresentar personagens, como reis, palhaços e bastiões, que visitam casas de devotos distribuindo bênçãos e recolhendo donativos para variados fins.

 

Apesar do apresentado nesta postagem, as apropriações e reconstruções dos foliões apontam para outras fundamentações baseadas também no próprio mito fundador da folia de Reis. Em uma tradição é necessária a invenção – não como algo relativo e oposto ao que é “real”, mas sim como uma forma de embasamento para a ressignificações realizadas a partir das escrituras.

 

Assim como as procissões e romarias, as folias estão inseridas em um ambiente de deslocamentos cujos significados conscientemente elaborados pelos seus participantes apontam para a produção de uma comunidade de devotos unida pelos valores da igualdade e solidariedade. Os foliões se reconhecem como “irmãos” a serviço de um santo. 

 

As marcas das Folias de Reis

 

A bandeira é um elemento importante e mais de 84% dos grupos mapeados pelo IEPHA fazem uso deste objeto cerimonial

 

Os palhaços, bastiões ou marungos, são personagens comumente encontrados em grande parte dos grupos de folia de reis de Minas Gerais. Apresentam-se com máscaras de aparência caricata e fardas (roupas) feitas com tecidos coloridos ou de farrapos assumindo movimentos e gestos mais livres e lúdicos se comparados aos demais foliões

 

A figura do palhaço tem significados múltiplos e ambíguos, muitas vezes de caráter antiestrutural. Eles se apresentam nos espaços de não-lugar, entre o sagrado e o profano, entre o espiritual e o físico. São guardiões da Bandeira e do Reisado como um todo. 

 

“As várias faces assumidas por ele e suas equivalências simbólicas com Exu fazem do palhaço o personagem mais enigmático e polissêmico da Folia de Reis.” (Neder, 2015)

 

Com esta roupagem e significação, não é de se estranhar que estas figuras causem estranheza e até mesmo medo, como na história do autor desta postagem. As máscaras dos marungos da cidade de Três Pontas/MG assustavam e me mantinham externo a essa tradição, sempre com um olhar receoso e de afastamento. Até que durante o processo de pesquisa e leitura para a escrita destas palavras, me deparei, nas ruas do meu bairro, com a Folia de Reis de Nossa Senhora do Bonfim. Até tentei continuar a leitura, mas a experiência da prática foi mais convidativa neste processo. Então resolvi acompanhar e vivenciar um pouco desta tradição do nosso Estado. 

 

Foi uma experiência muito rica e acredito ser importante descrever o que vivenciei, uma vez que cada Folia tem suas características únicas. Neste caso, a bandeira era levada à frente por um dos marungos (como apresentado anteriormente, outra definição para os palhaços das Folias de Reis) e todo o grupo respeitava aquele espaço. A bandeira deveria de fato ir à frente junto a todos e todas que assumiam as figuras dos marungos, que deveriam ser em média de 20 pessoas, entre homens, mulheres, adultos e crianças. E assim como os cantores e os foliões que acompanhavam, era possível perceber a predominância de pessoas de pele negra. 

 

Os marungos iam à frente, dançando ao som da banda e louvando com gritos de “uh é do Bonfim”. Ofereciam a bandeira àqueles que saíssem de suas casas ou mesmo transeuntes e comerciantes. Quando a bandeira era aceita e recebida, os marungos faziam grande comemoração “ao patrão” que os aceitou. Assim, a equipe de músicos louvavam a recepção com grande cantoria enquanto os demais foliões e marungos permaneciam do lado externo da residência, esperando pela partida com a bandeira. Durante este tempo, também aconteceu de ser recebida por um folião a céu aberto, nas ruas da cidade e por dois bares comerciais, onde os foliões aproveitaram para recarregar as energias tomando cerveja e cachaça. 

 

Com esta experiência vivida, consegui compreender na prática as leituras que estava fazendo e a relação do sincretismo nesta festa, onde os Santos Reis tem uma proximidade humana com aqueles que os louvam e as energias dúbias da religiosidade popular em meio às ruas e encruzilhadas da cidade, que trazem consigo um caráter de realidade espiritual e material. Recomendo a todos que tenham oportunidade, a possibilidade de transitar junto ao Reisado, sentindo a alegria da religiosidade popular brasileira e o patrimônio da cultura mineira.

 

Conclusão

 

De acordo com o IEPHA,  as folias identificadas em Minas Gerais possuem diversas variantes, desde o período em que os grupos saem para realização das visitas até a suas formas de organização social, ritualística e devocional. 

 

“Empreender qualquer esforço de compreensão de um universo com tamanhas variáveis é desafiador e nos leva à necessidade de buscar orientação mais nos elementos comuns à prática do que em suas diferenças” – IEPHA

 

Tanto as vestimentas vibrantes dos marungos quanto a celebração do Dia dos Santos Reis Magos em Minas Gerais formam um mosaico de cores e tradições vivas que têm suas raízes entrelaçadas ao longo dos tempos. A partir da sua origem num episódio bíblico que narra a visita dos Reis Magos a Jesus, essa festividade transcende seu contexto inicial, transformando-se em manifestações culturais multifacetadas no Brasil e no mundo. 

 

A devoção religiosa evidenciada nessas celebrações caminham sobre as terras de Minas Gerais, mantendo vivas a coletividade da tradição para aqueles que as experimentam através de sua fé e religiosidade. A diversidade das folias e as maneiras como são conduzidas são elementos da rica cultura religiosa e popular presentes nas festividades dos Santos Reis em Minas Gerais, o que a transforma e caracteriza como um patrimônio cultural imaterial que espelha parte da identidade dos nossos povos.

 

| por Júnior Archanjo

Junior Archanjo é natural de Três Pontas, uma cidade no interior de Minas Gerais com forte caráter agricultor e com histórias “deixadas para trás” em suas fazendas e quilombos. Teve acesso ao Ensino Superior graças a política de cotas e se graduou no curso de Licenciatura em Química pela Universidade Federal de Itajubá. Nesse percurso, encontrou na Educação uma forma de incentivar a mudança na realidade social de pessoas que também tem suas possibilidades demarcadas pela cor da sua pele ou pelo desconhecimento de suas raízes. Fruto da miscigenação, com sua pele parda, demorou até a idade adulta para se entender como pertencente à comunidade Negra e encontrar na Umbanda uma forma de entender e cultuar a sua Ancestralidade.

 

Referências:

Evangelho de São Mateus – Bíblia Sagrada edição da família – Editora Vozes

https://super.abril.com.br/historia/os-tres-reis-magos-eram-iranianos

https://www.cnnbrasil.com.br/internacional/dia-de-reis-entenda-a-historia-e-os-costumes-da-data/

https://www.brasildefato.com.br/2022/01/06/dia-de-reis-conheca-a-historia-da-data-e-como-ela-e-celebrada-no-brasil

http://www.iepha.mg.gov.br/index.php/component/phocadownload/category/21-as-folias-de-minas#

Folias de Minas 2016 – IEPHA

NEDER, Andiara Barbosa. Folia de Reis em Leopoldina: uma encruzilhada religiosa, artística e cultural. 2015. 220 p. Dissertação (Mestrado em Ciência da Religião) – Universidade Federal de Juiz de Fora, Juiz de Fora.