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Evidências baseadas em casos isolados. Impressões individuais e as evidências anedóticas

Você já ouviu algum relato de um remédio milagroso que a indústria farmacêutica esconde da população? Acredita quando ouve o testemunho isolado de uma pessoa sobre um determinado caso? Por exemplo: “Eu acho que as armas de fogo não aumentam os casos de violência, eu tenho uma e nunca matei ninguém”, ou “O aquecimento global é uma mentira, eu moro no Rio Grande do Sul e aqui está muito frio”.

Essas afirmações baseadas em testemunhos individuais ou casos isolados são o que chamamos de evidências anedóticas. Do ponto de vista científico, tais evidências têm pouca ou nenhuma validade, embora possam ser levadas a sério por muitas pessoas. Por exemplo, quase todos têm uma tia que tomou um remédio para dor, prescrito pelo médico para uma situação específica, que sai prescrevendo o mesmo remédio para toda a sua rede de contatos como se ela fosse dotada do conhecimento médico; afinal, se funciona para ela, deverá funcionar em todos. Ou, ao contrário, alguém que sofreu com reações mais fortes a uma vacina e recomendou à família e à vizinhança que ficassem longe dela.

Os exemplos citados não representam a minha opinião sobre o tema. Eles mostram, apenas, que os argumentos fundamentados em evidências anedóticas são muito ruins.

Por exemplo, você pode dizer que não acredita no aquecimento global, mas, para afirmar que ele não existe, irá precisar coletar e analisar dados considerando uma imensa quantidade de variáveis, e aí sim chegar a uma conclusão. Os cientistas já fazem isso há décadas e são submetidos a processos rigorosos de avaliações de suas hipóteses. Não será um que, sozinho, irá desbancar a comunidade científica inteira. Mesmo que os dados sejam bons, eles precisam ser testados e submetidos à análise de outros membros da comunidade científica. A ciência tem desenvolvido seu mecanismo de detecção de erros há séculos, e é isso que faz com que ela seja tão confiável.

Embora eu não tenha nenhuma base de dados que me permita afirmar isso, tenho a hipótese de que as evidências anedóticas têm correspondido ao principal tipo de argumentação nas redes sociais, nas quais os relatos, áudios e fotos são mais “verdadeiros” do que qualquer análise minuciosa dos fatos.

Isso é potencialmente perigoso, pois as pessoas que não souberem identificar tal forma de argumentação estarão sujeitas a serem enganadas por pessoas mal-intencionadas. Podemos citar uma infinidade de casos que vão desde o charlatanismo religioso – com sujeitos prometendo curas milagrosas –, passando pelo charlatanismo pseudocientífico, e terminando nas argumentações políticas.

De qualquer forma, a humanidade de uma forma ou de outra sempre contou com evidências anedóticas. Em certo ponto, isso pode ter contribuído para a sobrevivência da espécie.

A humanidade já acreditou que uma dança pode mudar fenômenos na atmosfera, que um cristal era capaz de curar todos os males, que um chá poderia expulsar espíritos malignos e nos conectar com o divino. Essas crenças não são exclusivas de povos antigos, ainda hoje há os que acreditam em astrologia, poder do pensamento de atrair coisas (vide O segredo) ou mesmo em homeopatia, que é uma crença socialmente aceitável e endossada pelos conselhos de medicina, mesmo não havendo nenhuma prova de sua eficácia. E não adianta tentar discutir, sempre haverá um exemplo (anedótico) para cada caso, no qual o processo terá funcionado.

O caráter inofensivo das evidências anedóticas tomou outra dimensão, tornando-se desproporcional com a evolução das redes sociais. Passamos a acreditar em montagens mal feitas, áudios de WhatsApp e em charlatães autointitulados cientistas ou filósofos. Mais do que isso, temos uma sociedade que compra medicamentos milagrosos que a indústria farmacêutica quer esconder (a custo de quê?, me pergunto; por que esconder algo que seria uma fonte de lucro?), vide o exemplo da fosfoetanolamina; acreditamos que o limão ajuda a alcalinizar o sangue; experimentamos dietas milagrosas que podem mudar o corpo em poucos dias. Enfim, a lista não para de crescer.

As coisas ficam piores quando os pseudocientistas (charlatães), acusam a ciência de estar querendo enganar a humanidade. “Médicos” charlatães dizem que os médicos escondem a verdade; “filósofos” charlatães se dizem os únicos detentores da verdade; “cientistas” charlatães dizem que tem todas as respostas e que toda a comunidade científica mente. A ciência, por sua vez, diz que não sabe exatamente o que é a verdade, mas muitas vezes sabe detectar com precisão uma mentira.

As pseudociências vestem uma roupa de ciência para tentar enganar. Devemos estar atentos: talvez no futuro a sobrevivência dependa disso.

Sobre o Autor:

| Lucas Fagundes Esteves

Um mineiro que se aventura trabalhando em terras cariocas. Apaixonado pela família, por música e pelas belezas das ciências naturais. Professor de química no tradicional Colégio Pedro II, no RJ. Doutor em química pela UFJF, com enfoque de pesquisa em química computacional. Já atuou como professor nos níveis médio, preparação pré-vestibular e pré-militar, cursos técnicos de química em escolas particulares de Juiz de Fora e como professor temporário de química na UFJF. Mantenedor da página de divulgação científica Bizu da Química e do canal Bizu da Química no Youtube.