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Série da Globoplay combina risadas, emoção e lições valiosas sobre ciência.

Por: Caio Roberto de Souza

Terminei de assistir à série Pablo e Luisão, de Paulo Vieira, no Globoplay, ao lado da minha mãe. E posso dizer sem exageros: já é uma das melhores produções de humor dos últimos anos. Rir junto com ela (algo nada fácil, diga-se de passagem) foi uma experiência transformadora.

O texto genial, o elenco impecável e as histórias recheadas de sensibilidade e humor nos transportaram para um universo em que, como pobres, pretos e do interior, conseguimos nos ver representados. Foi emocionante sentir que minha família e tantas outras tiveram, de certa forma, seu momento de aparecer na tela da Globo.

Enquanto comunicador de ciência, não pude deixar de notar uma contribuição valiosa da série: sua capacidade de tocar sutilmente em temas importantes para nossa área, como educação ambiental e pseudociências de forma acessível e popular, com uma simpatia que transcende o humor.

A intenção aqui não é dar spoilers, porque recomendo muito que você assista a obra, mas sim destacar os momentos que esses temas aparecem na comédia e analisar suas abordagens.

Pseudociência: uma oportunidade de atravessar o estado e “quase” ficar de fora do aniversário do filho.

 

Imagem: Globoplay


No episódio 10, “Aniversário do Neto”, Pablo e Luisão vivem um apuro que envolve tratamentos alternativos milagrosos para um problema de saúde de Luisão. Fugindo de hospitais por medo, ele se atrai pelo discurso de um curandeiro que promete soluções rápidas e gratuitas, como curar apendicite, pneumonia, dependência química, e outros problemas “sem tocar na gente” (como diz Pablo). A cena ganha uma dose de ironia quando Paulo Vieira intervém: “Aí você pensa: de um lado você tem um hospital público à 500 metros da sua casa com médico formado para te orientar, do outro, um curandeiro que faz tratamento alternativo no meio de outro estado. Tu acha que meu pai fez o que?”.

A história aborda não apenas a ineficácia de tais tratamentos, mas como discursos simplistas e imediatistas se popularizam no Brasil, especialmente entre os mais vulneráveis. Claramente, a intenção não é ridicularizar o pai de Paulo Vieira, seu amigo ou suas escolhas, mas refletir que a pseudociência gera consequências reais na vida das pessoas e, por isso, é um assunto sério a ser discutido.

No livro “Contra a realidade: a negação da ciência, suas causas e consequências” de Natalia Pasternak e Carlos Orsi, os autores pontuam

“O negacionismo, na maioria das vezes, tem menos a ver com o fato ou o consenso científico específico que é negado e mais com as consequências, reais ou presumidas.”

Equilíbrio Ambiental: qual é o limite das intervenções humanas no meio ambiente?

 

Imagem: Globoplay

 

O episódio 14, “Noni”, começa com várias cenas nas quais são oferecidas uma série de tratamentos alternativos falaciosos aos protagonistas, como a pedra ionizadora, que supostamente cura desde unha encravada até câncer (com direito até a uma explicação química absurda para o “fenômeno”), o tratamento com picadas de abelha para imunidade e o “kit seringa”, com a luta entre o “sangue de fora” e o “sangue de dentro”.

As reações de Pablo e Luisão a esses tratamentos são impagáveis:

Para a pedra ionizadora o comentário é: “Falando complicado desse jeito é porque funciona mesmo […] sentiu o paladar do íon? Essa é a amarguinha do próton”.

Já para a picada da abelha: “Uma vez tomei uma ferroada e a tosse passou de uma hora pra outra”.

Para finalizar com a chave de ouro, para o “kit seringa”, a conclusão após a explicação do charlatão é justamente essa: “É científico!”

Esses exemplos ilustram não apenas a diversidade de promessas falaciosas, mas como o discurso de pseudociências (com sua linguagem complexa, persuasiva, popular, e baseadas em associações e correlações) pode influenciar decisões, especialmente entre pessoas que enfrentam dificuldades de acesso a serviços públicos de qualidade e comprovadamente testadas de saúde, educação e informação.

Mas o ponto central dessa história é quando Pablo e Luisão “quase destroem o cerrado brasileiro” (pelas palavras de Paulo Vieira) ao tentar plantar uma árvore não nativa na região por interesse comercial. A dupla se deixa convencer por promessas de lucro fácil, baseadas em mitos sobre as propriedades milagrosas da árvore. O vendedor afirma que a espécie é consumida por elefantes para viverem mais e que tailandeses a usam para não adoecerem. No entanto, essa intervenção irresponsável gera conflitos com a comunidade, problemas legais, repercussão na mídia tradicional e desastres ambientais.

O plus do episódio é a inserção dos povos originários na narrativa, que recusam o plantio da espécie para proteger o bioma local. Essa escolha reflete a relação de cuidado e respeito com a natureza, em contraste com a abordagem exploratória e mercantilista. Aqui, a série oferece uma oportunidade para discutir justiça ambiental, responsabilidade ética e o protagonismo dos povos da terra na discussão sobre preservação dos ecossistemas.

É claro que a arte não deve ser encarada apenas como uma ferramenta para a ciência, mas não podemos ignorar as oportunidades que obras como essa oferecem para refletirmos sobre questões fundamentais: o impacto das pseudociências nas vidas de populações mais vulneráveis, nossa relação com a natureza como bem comum, justiça ambiental, relevância midiática de temas científicos, e o respeito a luta dos povos da terra, que se recusam a submeter o equilíbrio ecológico a interesses financeiros.

Em 16 capítulos, Paulo Vieira e sua equipe entregaram gargalhadas, emoção, identificação, consciência social e, por que não? uma boa aula de ciência.

A obra me inspira a explorar ainda mais as interseções entre arte e educação científica. Afinal, rir também é uma forma de aprender.

 

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